MEMBROS DE QUADRILHA ESPECIALIZADA EM ESTELIONATO SÃO PRESOS EM BELO HORIZONTE

Três homens suspeitos de integrarem uma quadrilha especializada no crime de estelionato foram presos pela Policia Civil durante uma operação na última quarta-feira (19). Um deles seria funcionário da cervejaria Ambev e teria a função de facilitar o golpe contra a própria empresa em que trabalhava. O esquema aplicado pelos suspeitos era conhecido como “laranja mecânica”. O prejuízo estimado é de pelo menos R$ 500 mil.

De acordo com a Polícia Civil, nesse tipo de crime, a quadrilha adquiria empresas em nome de laranjas. Em seguida,  faziam grandes encomendas para a compra de produtos de empresas do ramo alimentício, mas “sumiam do mapa” com as mercadorias, antes mesmo de pagar a totalidade do valor devido, que era dividido em parcelas mensais. O golpe também era aplicado em ciclos, ou seja, quando conseguiam extrair as mercadorias sem o pagamento total de um fornecedor, partiam logo em busca de outro alvo, utilizando outra empresa em nome de laranjas, dando a ideia de movimento. Por isso o golpe é chamado de laranja mecânica. 

De acordo com o Delegado Gustavo Barletta da Polícia Civil, as investigações foram iniciadas há cerca de seis meses e o grupo tentava ganhar a confiança da empresa fornecedora para obter créditos cada vez mais altos, antes da grande compra. No caso da Ambev, o funcionário teria um papel fundamental para isso. 

“Eles começam a angariar créditos junto à praça, ou seja, compram R$ 30 mil em cerveja e os boletos são divididos em três ou quatro vezes. Pagam o primeiro boleto e pagam o segundo boleto. Aí a fornecedora dá um ponto positivo para eles. Daí eles compram R$ 60 mil. Eles pagam o primeiro e o segundo boletos. Eles pagam somente os boletos iniciais, o que gera credibilidade dentro do fornecedor. Quando se passa seis ou sete meses, eles fazem uma compra maior, por exemplo de R$ 150 mil com a cervejaria. É aí que eles fazem o que a gente chama de estourar a praça. Eles recebem a maioria do material comprado e do dia para a noite fecham a distribuidora e somem com todo o material”, explicou o delegado.  

Ainda segundo a Polícia Civil, o funcionário da Ambev tem 40 anos e trabalhava na empresa há 16 anos. O papel dele seria o de passar informações para que os criminosos conseguissem créditos cada vez maiores com a empresa, para que o golpe pudesse ocorrer. Em troca, o funcionário receberia uma porcentagem da carga que fosse obtida. Os investigadores apuraram que seja algo em torno de 15%. O homem não tem passagens policiais. 

“Percebemos que ele foi aliciado pelos estelionatários. Ele era vendedor da empresa e a partir do momento que ele começou a ter um relacionamento melhor com os estelionatários, eles combinaram com ele de ele facilitar os créditos. Ou seja, eles compravam R$ 10 mil, mas precisavam comprar R$ 20 mil. Ele dava dicas de como eles podiam fazer para aumentar o crédito.

A partir do momento que a gente percebeu que na verdade ele estava participando da modalidade criminosa, infelizmente tivemos que realizar a sua prisão”, pontuou o delegado. Em alguns casos, os dados eram adulterados, para que os criminosos pudessem ter o mínimo exigido pela Ambev para a obtenção dos créditos. 

Em nota a Ambev disse que abriu uma investigação interna para apurar e está colaborando com as autoridades na elucidação do caso.


MORTE DO CHEFE

A investigação teve início após uma denúncia, ainda no fim do ano passado. O líder do esquema seria um homem de 38 anos, que acabou morrendo em março deste ano, após contrair a Covid-19. Com a morte, um outro homem de 41 anos, que já pertencia à quadrilha, teria assumido a liderança dos negócios. Ele foi preso pela Polícia Civil durante a operação da última quarta-feira (19), junto com um outro suspeito de 39 anos, que seria o seu braço direito.

Outras quatro pessoas são investigadas por participação no esquema, mas ainda não foram presas.

O GOLPE

Para aplicar o golpe, os suspeitos adquiriam empresas que possuiam registro aberto, mas que  por algum motivo, não exerciam as atividades. A partir delas, a quadrilha iniciava as encomendas com fornecedores para aplicar o golpe. A investigação apurou que no ramo de bebidas, o grupo adquiriu algumas distribuidoras. 

“Eles procuravam distribuidoras de bebidas que estavam abertas a mais de quatro anos, mas que não estavam exercendo as atividades. Compravam essas empresas e colocavam em nome de laranjas”, disse o delegado Gustavo Barletta. A partir da compra dava-se início a próxima etapa do golpe, que consistia em obter a confiança dos fornecedores a partir de compras menores. 

Para conseguir pagar os primeiros boletos com os fornecedores, o grupo vendia as mercadorias a preços abaixo do mercado. A medida que eles ganhavam a confiança do fornecedor, consequentemente conseguiam o aumento  do crédito para compra. A inivestigação apurou que a  última compra feita com a  Ambev totalizou R$ 150 mil.

As mercadorias foram recebidas, mas o valor não chegou a ser pago pelos suspeitos. “É um golpe demorado, seis ou sete meses para conseguir o crédito. Ao mesmo tempo que ele tem essa (empresa) aqui, ele já vai montando outra e por aí vai”, pontuou o delegado Gustavo Barletta. 

Empresas fornecedoras de feijão, frango, açúcar e carvão também teriam sido vítimas do golpe que era aplicado da mesma forma. O prejuízo somado de todas as empresas fornecedoras chega a R$ 500 mil. 

O LARANJA

No caso do esquema conhecido como laranja mecânica, o delegado Gustavo Barletta explica que as empresas utilizadas nos golpes são colocadas em nome de laranjas pelos criminosos. Esses laranjass podem ou não existir fisicamente. No caso do golpe aplicado no ramo de bebidas, um homem teria vendido o CPF dele para que os suspeitos pudessem colocar as empresas em seu nome. Aos policiais, o homem teria dito que não sabia o que seria feito com os dados. Apesar disso, os investigadores apuraram que ele recebia cerca de R$ 1.500 por mês para isso. 

“Ele falou que esses criminosos compraram o seu CPF, mas segundo ele não sabia para quê. Disseram que precisavam comprar uma empresa, mas que estavam com o nome sujo. Aí ele teria vendido para eles”, disse o delegado. 

Os presos vão responder por associação criminosa e estelionato.

Fonte: Jornal O Tempo