SEGURANÇA PÚBLICA TEM 'BURACO' DE 23 MIL AGENTES EM MINAS GERAIS

O déficit de agentes na área de segurança pública em Minas Gerais é de pelo menos 22,9 mil profissionais. O número refere-se à demanda reprimida para as polícias Civil e Militar, além do Corpo de Bombeiros. A situação é crítica e, até o momento, sem uma solução a curto prazo. Nem mesmo a convocação dos excedentes aprovados em concursos públicos anteriores aliviaria a situação, afirmam representantes dos trabalhadores.

A maior defasagem é na Polícia Civil, que atualmente trabalha com 60% do efetivo previsto na lei orgânica. São, hoje, 10.185 agentes, enquanto pela norma deveriam ser 17.517. A função mais afetada é a de escrivão, com déficit que chega a 49%. 

Chefe da corporação, Wagner Pinto afirmou, durante audiência pública na Assembleia Legislativa, no fim de setembro, que esses são os servidores que mais sofrem por conta do estresse. No Estado, ainda segundo o delegado, 61 unidades policiais não têm o profissional no quadro de servidores ativos. 

O déficit de delegados em Minas também é considerável e chega a 44%. Na audiência pública na Assembleia, o chefe da Polícia Civil, Wagner Pinto, disse que, só em maio deste ano, 20 profissionais se aposentaram. Inclusive, a reforma da Previdência do Estado pode provocar uma debandada geral nas forças de segurança, alertam os sindicatos das categorias.

“Isso resulta na sobrecarga de trabalho. Tem caso de apenas um profissional com 3 mil, 5 mil inquéritos. O adoecimento é tão grande, que perdemos colegas porque não aguentaram e se mataram”, reforça Bruno Viegas, presidente do Sindicato dos Escrivães de Polícia de Minas Gerais (Sindep).

Os impactos também atingem a própria população. “Uma vez que esse profissional é um gestor da informação, tudo passa por ele. Faz um ‘meio de campo’ entre o delegado e o investigador e vice-versa. Sem o escrivão, o andamento de inquéritos acaba prejudicado”, complementa o representante da entidade.

 

FORA DE HORA

Já no Corpo de Bombeiros, que tem 30% a menos do efetivo previsto na lei orgânica, a queixa de quem está na ativa é a convocação nas folgas. Cabo João*, há duas décadas na corporação, afirma que o chamamento tornou-se comum.

“Quando entrei, a tropa era mais saudável, tinha mais gente para dividir o peso. Agora, em um mesmo plantão, o bombeiro atende acidente de carro, afogamento, combate incêndio, sai de uma vai para outra. Temos amor para poder entender, mas para fazer isso precisamos estar em pleno vigor físico. Porém, estamos sobrecarregados”, lamenta o agente.

Presidente da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares (Aspra), o subtenente Heder Martins de Oliveira diz que o cenário é preocupante. "Só não é pior porque a PM de Minas utiliza uma tecnologia que otimiza a presença do policial militar na área. Mas cabe ressaltar que estamos com um efetivo comparado ao de 1990. De lá para cá, veja quanto cresceu a população mineira, mas o número de policiais, não”.

Ainda durante a audiência pública, os comandantes das Polícias Civil e Militar e dos Bombeiros disseram que pediram ao governo autorização para contratar os excedentes de concursos, de forma a aliviar o quadro. Em nota, o Executivo estadual informou manter o diálogo aberto com todas as categorias e “que está impossibilitado de promover acréscimos à folha de pagamento, devido às exigências do teto de gastos, previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF)”.

*Nome fictício 

Fonte: Jornal Hoje em Dia