POLÍCIA APRESENTA PROVAS DE TRÁFICO INTERNACIONAL DE CRIANÇAS EM HOSPITAL DE CONTAGEM

Provas recolhidas durante investigação da Polícia Civil indicam a prática de tráfico internacional de crianças no Hospital de Contagem. O  inquérito criminal apura o envolvimento de quatro pessoas com uma organização criminosa que negocia recém-nascidos, utilizando grupos de WhatsApp e Facebook. Há registros de conversas e áudios em que crianças foram negociadas por R$30 mil.

O caso foi descoberto na última terça-feira, quando a Polícia Militar prendeu uma mãe que negociava a filha com quatro pessoas de um grupo chamado Barriga de Aluguel. Os integrantes aguardavam o nascimento da criança no saguão da Maternidade do Hospital de Contagem, na Grande BH.

 Nesta manhã, em coletiva à imprensa, o delegado regional de Contagem, Christiano Augusto Xavier Ferreira informou que as investigações estão avançadas e apontam para uma grande quadrilha especializada na compra e venda ilegal de crianças.

“As investigações aprofundaram muito. Além de análises em celulares, foram feitas entrevistas e interrogatórios. Verificamos que existe uma organização criminosa com envolvimento de pessoas da Itália e Estados Unidos, que usam grupos de WhatsApp e Facebook, por onde as crianças eram vendidas e compradas livremente. Inclusive, em alguns 'barriga de aluguel' – como são chamados os grupos – falam em valores de R$30 mil para a negociação dos bebês,” explicou o delegado.

Os dois casais que foram detidos na terça-feira no hospital - e apresentados nesta manhã à imprensa - ainda não tiveram as reais funções na quadrilha esclarecidas. Lilian da Conceição, de 32 anos, Carlos Alberto Silva, de 62, Lediane Cruz da Conceição, de 33 e Adriano Teixeira Fraga, de 39, vieram do Rio de Janeiro e foram presos por formação de quadrilha. Segundo a polícia, eles ainda podem ser enquadrados no artigo 238 do Estatuto da Criança e Adolescente (Eca), que trata da entrega do filho mediante recompensa financeira.

“Nós fizemos uma análise na vida pregressa deles em conjunto com a Polícia Civil do Rio de Janeiro e verificamos que eles não têm passagens por nenhum tipo de crime. Então,  ainda precisamos apurar se são mentores, articuladores da organização, ou se utilizam os grupos para adquirir crianças por meio ilegal,” disse.

O delegado Christiano Xavier adiantou, no entanto, que indícios  apontam Lilian da Conceição como uma das mentoras do esquema. “A Lilian, a princípio, é  que articula todas as negociações. No Facebook ela participa de dezenas de grupos de doações voluntárias, barriga de aluguel e desapego”.

Adriano e Lediane contaram à Polícia Civil que vieram à Contagem com a promessa, feita por Lilian, de que se o bebê fosse um menino, eles poderiam comprar. Mas, se fosse menina, que a criança ficaria com Lilian e passaria a outra família. Lilian, no entanto, alegou que apenas queria adotar a criança e participava dos grupos sem ambição de participar da venda criminosa.

O delegado desconfia da versão de Lilian, pois a mulher tem seis filhos, sendo três que não são registrados pelo atual marido, Carlos Alberto Silva, e outras três, que foram registrados pelo homem, mas com outra mulher. Outro fato que trouxe desconfiança ao delegado, são as baixas condições financeiras do casal.

Os quatro detidos estão à disposição da Justiça e as investigações continuam para apurar se brasileiros que moram no exterior e também participavam dos grupos nas redes socais, eram mediadores das negociaçaões ou compradores das crianças.

Registro ilegal

Para conseguir registrar os bebês ilegalmente, a quadrilha orientava as mães, segundo a Polícia Civil, a rasgar as fichas que são emitidas na maternidade quando a gestante dá luz à criança.

"Elas chegavam ao cartório e diziam que o filho nasceu dentro da própria casa, durante a madrugada, e que não foi possível chamar um médico. E aí as outras pessoas da quadrilha chegavam como testemunha para lavrar o registro da certidão de nascimento” 

Arrependimento

Segundo a Polícia Civil, Ana Cristina Soares, que deu à luz na Maternidade de Contagem chegou a negociar a filha, mas se arrependeu quando a criança nasceu. A mulher, moradora do Norte de Minas, segundo apurou as investigações, escondeu a gravidez da família, fato facilitado pelo porte físico da mulher.

 Conforme a corporação, Ana Soares disse que em nenhum momento pensou em negociar a filha e que iria doá-la. O dinheiro que ela recebeu, por depósitos bancários, foram apenas para custear gastos da gestação. Um áudio enviado por Lilian à Ana explica o que ela deveria fazer para conseguir facilitar a entregada criança.

Tráfico de órgãos

A Polícia Civil também não descarta, durante o desenrolar das investigações, que a quadrilha também esteja envolvida com tráfico de órgãos. Mas, conforme Christiano Xavier, não há provas reais que possam embasar a denúncia. O delegado também não descartou encontrar crianças que já foram negociadas.

 

Fonte: Jornal Estado de Minas