FALTA DE ESTRUTURA DA POLÍCIA “PRENDE” VÍTIMA EM DELEGACIAS

Primeiro, você é roubado, levam seu celular e deixam em você um trauma. Quando procura a polícia, a sensação de desamparo aumenta porque é preciso ficar horas – às vezes até mais de um dia – esperando na delegacia para finalizar uma ocorrência, se houver prisão em flagrante.

Imagine todo esse tempo em um lugar com cadeiras quebradas, sujo, ao lado do autor do assalto e de outros bandidos, fazendo a vítima até pensar em desistir e ir embora. Essa situação aconteceu com a mulher de 40 anos que a reportagem de O TEMPO mostrou nessa sexta-feira (22). Ela foi assaltada na avenida Babita Camargos, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, e esperou cerca de nove horas para registrar a ocorrência.

Ela perdeu uma tarde e uma noite na Delegacia de Plantão, que atende todos os flagrantes da cidade. “Já atendi gente às 7h que estava esperando desde as 13h do dia anterior. Quem é vítima é vítima duas vezes”, disse um servidor, citando como rotineiro o caso da vítima que aguardou 19 horas. “Tem gente que chega a esperar 30 horas”, afirmou outro.

Precariedade. Contagem tem cerca de 700 mil habitantes. São três batalhões de Polícia Militar (PM) para atender, em média, 35 ocorrências de crimes violentos (roubo, assassinato, estupro e sequestro) por dia. Mas se houver preso em flagrante ou se o caso for em um fim de semana ou à noite, tudo afunila e vai parar em uma única delegacia com um escrivão, um delegado e três investigadores.

Durante a semana, de dia, são sete delegacias, mais as especializadas de mulheres, homicídios, menores e crimes pequenos (com penas de até dois anos). Três dessas unidades estão sem delegados há dois meses.

“Fazemos de tudo para atender a demanda, mas tem dias que atrasa mesmo, precisamos, principalmente, de mais escrivães”, disse o delegado regional do município, Christiano Xavier, acrescentando que, quando a vítima é de violência sexual ou idosa, tenta-se passar na frente. A chefia da Polícia Civil foi procurada, mas não retornou.

Salários. Os policiais civis receberam um comunicado avisando que o pagamento que deveria ter sido feito no início do mês de agosto será feito apenas no fim deste mês devido às dificuldades financeiras do Estado.

Falta pessoal em todo o Estado

O sucateamento e a falta de efetivo e de estrutura não são problemas isolados na Polícia Civil em Contagem. Essas situações ocorrem em todo o Estado, mas estão piorando nos últimos anos.

A avaliação da vice-presidente do Sindicato dos Delegados (Sindepominas), Maria de Lurdes Camilli, na instituição há 40 anos, é a de que esse é o pior momento. “Não há uma cidade que não esteja com problema”, disse ela.

A defasagem de pessoal chega a 6.000 policiais, de acordo com o sindicato.

 

Fonte: Jornal O Tempo