A POLÍCIA QUE MATA E MORRE

Entre 2002 e 2015, os gastos com segurança pública, nos âmbitos federal, estadual e municipal, somaram R$ 76,3 bilhões, um crescimento de 62% no período. Mas os resultados foram insatisfatórios. O Brasil detém o primeiro lugar em homicídios no mundo, com 60 mil vítimas por ano. Os policiais estão entre os brasileiros que mais foram assassinados – entre 2009 e 2015, o número de agentes que morreram em serviço foi 110% superior ao dos colegas norte-americanos. As forças de segurança são vistas pela sociedade como muito violentas, embora 64% reconheçam que os integrantes são caçados pelo crime, e 63%, que as condições de trabalho são inadequadas.

Os números revelam que, sem medidas eficazes, seguimos trilha que não conduz o país a pacificação. Em 2016, foram mortos 477 policiais no país. No Rio, a cifra alcançou 36, ante 23 no ano anterior. Vale lembrar que mais da metade dos casos fatais ocorre durante a folga do agente.

Duas razões explicam o fato. De um lado, é a oportunidade em que o agente está mais vulnerável porque se encontra só, separado do grupo. De outro, muitos aproveitam a folga para trabalhar com segurança privada para complementar a renda. Não raro entram em confronto com marginais armados, muitos dos quais com equipamentos mais sofisticados.

Existe também o outro lado da moeda. A polícia que morre também mata. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de pessoas mortas pela polícia ultrapassa o de vítimas de latrocínio – 3.345 contra 2.314. A situação despertou especial atenção com a morte de Amarildo de Souza. O pedreiro, assassinado por policiais na favela da Rocinha, no Rio, ganhou notoriedade com as manifestações que tomaram as ruas do país entre junho de 2013 e julho de 2014.

Na guerra inglória, não há ganhadores. Todos perdem. O medo transforma a sociedade em refém. Nada menos que 61,8% dos policiais evitam tomar transporte coletivo, 43% escondem a farda ou o distintivo no trajeto entre a casa e o trabalho e 65,7% afirmam que recebem tratamento discriminatório por causa da profissão. Eles reclamam de desamparo – falta apoio da sociedade e dos comandos.

Os cidadãos, por seu lado, tornam-se prisioneiros na própria casa. Erguem muros altos, cercam-se de câmeras, privam-se de joias, tremem quando precisam parar no sinal de trânsito. No Rio, balas perdidas matam crianças até na escola. A população clama por medidas eficazes. Entre elas, a reformulação de leis e normas, salários justos, fortalecimento de órgãos corregedores, controle rigoroso de armas e munição, além de uso de câmeras em carros e uniformes da polícia. Em bom português: a inteligência e a tecnologia precisam ser convocadas.

 

Fonte: Jornal Estado de Minas