''DÁ PARA CONSERTAR MINAS EM QUATRO ANOS'', DIZ ZEMA

Às vésperas de completar seis meses à frente do Palácio da Liberdade, o governador Romeu Zema (Novo) afirmou ontem, em entrevista ao Estado de Minas e Portal Uai, que acredita poder cumprir todas as suas propostas e objetivos no estado nos quatro anos de mandato. E se isso se concretizar, ele descarta disputar a reeleição.

“Quem sobe o Monte Everest nunca mais volta lá. Se eu consertar Minas, vou ficar satisfeito, falar ‘fui e consertei’ e bola para frente, vamos partir para outros desafios. Quatro anos são suficientes, dá para consertar, dá para fazer muita coisa”, disse. 

Na companhia de uma inseparável caderneta na qual anota dúvidas e informações que recebe – ele disse já ter completado cinco delas –, o estreante na política falou sobre os seis primeiros meses de mandato e os desafios para os próximos anos. 

Zema afirmou que a geração dos 150 mil empregos por ano prometidos durante a campanha será sua prioridade nos próximos seis meses. Aliado a isso, o governador aposta na reforma da Previdência e na adesão ao regime de recuperação fiscal do governo federal para tirar o estado da crise. 

Se conseguir aprovar o ajuste, com o aumento da contribuição previdenciária do funcionalismo, Zema deu prazo de três meses para o governo de Minas deixar de parcelar os salários. O governador também falou sobre a relação com a Assembleia e as expectativas para a economia do estado.

 

GERAÇÃO DE EMPREGOS

Gerar emprego será prioridade para os próximos seis meses de governo. Temos conversado com muitas empresas, diversos projetos em andamento. Um dos maiores que vamos ter é a fábrica de celulose solúvel no Triângulo Mineiro, com uma associação da Duratex, que é uma empresa austríaca, e diversos outros empreendimentos. A própria CBMM, que produz nióbio está ampliando a capacidade em Araxá, a Fiat, que demos notoriedade (em maio, a Fiat Chrysler anunciou investimentos de R$ 8,5 bilhões na fábrica de Betim). Em Minas, só reduzir despesas não é suficiente para resolver o problema do estado, precisamos ampliar a economia, é o único caminho que temos então para atrair emprego. E dentro desse contexto a Cemig acaba sendo mais um obstáculo do que algo que impulsiona. Até quando vamos conseguir atrair investimentos com a Cemig nessa situação?

 

REELEIÇÃO

Tem coisas na vida que a gente faz uma vez. Quem sobe o monte Everest nunca mais volta lá. Se eu consertar Minas vou ficar satisfeito, falar fui e consertei e bola para frente, vamos partir para outros desafios. Quatro anos é suficiente, dá para consertar Minas, dá para fazer muita coisa.

 

SETOR PRIVADO x PÚBLICO

Quem tem me encontrado hoje e me conhecia antes, tem dito que estou com a cara muito melhor. A sensação que tenho é que na minha empresa já havia aprendido bastante e feito muita coisa. Me parece que aqui estou enxergando mais oportunidades. É muito gratificante você ver que pode melhorar as coisas. Um estado acumula ineficiências com muita facilidade e, como venho de um setor privado, estamos enxergando muita coisa em termo de redução de custos, melhoria e eficiência, que já começou a dar resultado. No decorrer dos anos, isso vai ser potencializado e melhorar muito. Estou bastante otimista.

 

FRUSTRAÇÕES

Diria que algumas vezes é frustrante, porque tudo o que se faz no estado tem de consultar a Advocacia-Geral para ver se aquilo está dentro da legalidade. Muitas alterações temos de fazer via Assembleia e isso leva um certo tempo, apesar de a Assembleia estar sendo bastante colaborativa. No meu ponto de vista está compreendendo a situação extremamente delicada das finanças de Minas. Mas não deixa de ser um pouco frustrante para quem vem do setor privado que assenta numa reunião e está tudo definido. O estado tem uma estrutura mais estável, não foi feito para mudar como uma empresa privada, que muda com mais rapidez, mas diria que estamos nesses seis meses fazendo mudanças que muito provavelmente não foram feitas nos últimos anos no estado.

 

SALÁRIO ALHEIO

O que aconteceu no caso de abrir mão do salário de governador foi que estava fazendo isso sobre a minha pessoa, tenho condições, minha empresa continua operando e recebo recursos, apesar de não estar lá, como acionista. O pessoal da minha área de marketing, na ocasião da campanha, gostou muito disso e falou vamos registrar em cartório. Por algum motivo, quando já estava a imprensa lá no cartório, alguém, não sei se por desconhecimento, incluiu além de mim outras pessoas (os secretários). E eu já estava lá em frente às câmeras, na frente da imprensa e falei 'minha chance sei que é muito pequena de ganhar (a eleição) vou assinar'. E acabou que fiquei nessa sinuca de bico. Mas vale lembrar que muitos dos meus secretários têm situação semelhante à minha, são pessoas que já estão numa fase pós-carreira, que já fizeram uma poupança, já têm alguma empresa operando. Mas muitos não. Temos pessoas novas extremamente dinâmicas que vieram de outros estados. E temos pessoas que eu nem conseguiria fazer essa promessa cumprir porque são cedidas de órgãos federais. Não imaginava que fosse uma salada de frutas com tantas frutas diferentes e acabou no que deu. Reconheço que foi um erro. Se eu tivesse tido maior proximidade com o funcionamento da gestão pública nunca teria assinado aquele documento, exceto para mim. Minha parte estou cumprindo.

 

SALÁRIO MÍNIMO OU NADA?

Gostaria que as pessoas indicassem o que é melhor (emenda aprovada na reforma administrativa permite ao governador optar por receber um salário mínimo ou não receber nada). Se há essa opção de não receber, parece que é o que estaria mais de acordo com o que propus. Hoje estou doando. Sobre os outros (secretários e dirigentes) gostaria de não opinar porque já opinei uma vez, como eu disse, e eu vi que não é o ideal.

 

ASSEMBLEIA

Tanto Minas quanto o Brasil estão passando por um momento inédito. Tivemos minha eleição, uma pessoa que nunca teve relação com a política, e eleição de um presidente que veio de um partido que nunca teve grande representatividade e isso está gerando um terremoto nas relações entre Executivo e Legislativo. Estamos aprendendo, criando esse diálogo e interlocução para que venhamos a falar a mesma língua. De todos deputados de Minas, o único que eu conhecia há um ano era o Bosco, da minha cidade. Então, estou lidando com 76 deputados que não conhecia, inclusive o próprio Agostinho (Patrus, presidente da ALMG). Leva um tempo. Mas vejo que é um namoro que está caminhando bem e vai virar casamento.

 

FOGO AMIGO DO NOVO

Um partido que prega o liberalismo tem que tolerar esse tipo de coisa. Ser liberal é tolerar, não é concordar, mas respeitar opiniões diferentes, acho que está bem dentro do credo do nosso partido essa expressão do deputado Bartô, que foi uma surpresa. Do meu ponto de vista, ele se excedeu um tanto quanto. Mas por coincidência estava almoçando com a secretária Júlia (Sant'Anna, de Educação) e acho que não tem nada melhor que demonstrar bom desempenho para poder mostrar que o trabalho está na direção certa. E a Secretaria de Educação vai mostrar excelentes notícias nos próximos anos. No Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), vamos dar um pulo.

 

DALAI, BUDA E BÍBLIA

Venho de uma família católica, mas até hoje li muito mais Dalai Lama e Buda do que a Bíblia. Tento levar tudo na paz, berro não resolve as coisas, agressão não resolve. Precisamos aprender a entender o ponto de vista alheio, dialogar, isso é que constrói uma ideia melhor.

 

POVO E PRIVATIZAÇÃO

Hoje, a Constituição mineira fala em referendo popular para privatizar empresas. Até podemos avaliar essa opção, apesar de ser extremamente onerosa, trabalhosa e difícil na questão de tempo e estrutural. Além disso, vejo que quando se fala de privatização a maioria da população não tem acesso a dado para poder avaliar bem. Algumas vezes, temos de delegar para algumas pessoas determinadas questões. Não tomo remédio sem consultar médico. Quem está na Assembleia hoje é que tem condição de se aprofundar nos dados, do meu ponto de vista. Sem desrespeitar o mineiro, teria condição de tomar uma decisão mais adequada que a própria população.

 

VOTOS PARA PRIVATIZAR

Hoje não teríamos votos na Assembleia, mas vamos caminhar para tê-los. Temos de pensar que empresa estatal já foi bom no passado, no governo militar surgiram diversas e foram sucesso, mas o mundo mudou. Hoje temos um estado quebrado. O principal dono da Cemig é o estado e ela precisa de R$ 21 bilhões para deixar a rede de transmissão, geração e distribuição em ordem. Ela não tem condição de investir esse valor, vai investir R$ 6 bilhões nos próximos anos. Queremos uma empresa que atenda bem à população e possa trazer novos empregos para Minas ou uma empresa travando esse desenvolvimento?

 

ATRAÇÃO DE INVESTIMENTOS

Temos excesso de capital no mundo, taxa de juros negativa em alguns países. Só não temos mais investimento no Brasil porque está aguardando a reforma da Previdência. O Brasil não é um país tão convidativo porque temos hoje ainda um Estado que gasta mais do que arrecada e isso faz com que o risco país vá lá para cima e afugente os investidores. Então, a reforma da Previdência está dentro desse contexto. Quero no meu governo fazer com que Minas venha a ser o estado da energia abundante e barata. Isso é o que vai atrair mais empresa para Minas. Já fomos o maior produtor de alumínio no Brasil, hoje não produzimos mais nada porque é muito mais conveniente para quem tem a energia hidrelétrica vender no mercado do que produzir o alumínio. O Brasil virou isso. Onde energia é cara vou produzir para vender e não para consumir.

 

FIM DO PARCELAMENTO

Se aprovarmos o ajuste fiscal, em questão de 90 dias temos como colocar a folha de pagamento do funcionalismo em dia e não mais de forma parcelada. Em cerca de 90 dias já haverá os reflexos que vão permitir isso. Primeiro porque vamos ter as privatizações, talvez levem até mais tempo, mas os ajustes vão significar redução de despesa e aumento de contribuição de algumas categorias. Isso tem um efeito imediato. A própria reforma da Previdência vai ter um efeito imediato nos cofres do estado. Temos no Brasil, entre desempregados e subempregados, 28 milhões de pessoas. Quem é que pode contribuir neste momento? Quem tem estabilidade no emprego e aposentadoria ou o desempregado? É o momento de a sociedade enxergar que precisa sacrifício e o sacrifício tem de vir de quem está aí. Hoje, no Brasil, quem tem comida na mesa e uma renda é privilegiado porque temos 20 milhões de pessoas que não têm esse privilégio.

 

OUTROS GOVERNADORES

A classe política precisa ter coragem. Fico indignado com alguns governadores com os quais participo de reunião que não assumem essa postura de que a reforma da previdência é necessária. Eu e os outros governadores estamos nadando num mar cheio de tubarão e tem governador que fala o seguinte: 'só aceito sair daqui se tiver um banquete aí, caso contrário não quer sair'. Qualquer um que saísse de um mar de tubarão deveria agradecer, e a reforma da Previdência vai ser extremamente benéfica para os estados nesse sentido.

 

RECUPERAÇÃO ECONÔMICA

Minas está inserida no contexto do Brasil e dependemos da reforma da Previdência e tributária. E nós estamos fazendo em Minas um trabalho que está nos deixando um pouco menos afetados pela tempestade Brasil. Nos quatro primeiros meses do ano, de acordo com o Caged, somos o segundo estado que mais criou empregos: 55 mil (em maio, Minas ficou em primeiro lugar, conforme dados divulgados ontem). Perdemos para São Paulo, mas proporcionalmente somos muito melhores, enquanto muitos estados tiveram decréscimo no número de vagas. Estamos fazendo um governo amigo de quem investe e gera empregos. Estava agora cedo com o prefeito de Uberaba e o presidente da cervejaria Petrópolis que ia fazer um investimento de R$ 600 milhões e agora falou que vão ser R$ 1,1 bilhão, vou investir e produzir o dobro. Como essa cervejaria, estamos atraindo uma série de outros empreendimentos.

 

ESTABILIDADE x EMPRESÁRIOS

Coloco tapete vermelho para o empresário que está vindo para Minas. Não estou fazendo muito diferente do que os outros faziam, mas estou dando estabilidade e previsibilidade. Uma das coisas que prejudicaram muito Minas no último governo foi os prefeitos inclusive não saberem o quanto receberiam. O que aconteceu em Minas nunca aconteceu no Brasil, que é o prefeito não receber repasse constitucional. Então, essa previsibilidade que estamos dando, esse trabalho sério atrai emprego e faz a economia começar a se reerguer. Talvez a gente até esteja indo bem porque estava indo mal demais, a referência era muito baixa. Mas eu diria que Minas vai ficar bem acima da média do Brasil, faço questão e pessoalmente tenho conduzido isso. Cada empreendimento que vem para cá encontro com o presidente e asseguro para ele: aqui as regras são estáveis, aqui não vai ter invasão de terra, não vai ter via interditada com protesto. Aqui é um lugar para trabalhar, é um lugar de ordem. E isso tem peso.

 

FONTE: Jornal Estado de Minas